Trilhas, amigos e o tribunal do algoritmo

    O caso do trilheiro que se perdeu no Paraná após ser deixado para trás pela amiga expõe uma ferida aberta em nossa sociedade: a transformação de erros de conduta em espetáculos de entretenimento.
    É inegável que a jovem falhou ao quebrar a regra de ouro do montanhismo "nunca abandonar um companheiro". Essa imprudência, embora grave e que deva ser criticada, foi rapidamente sequestrada por uma narrativa midiática sensacionalista que, em vez de focar nos esforços de busca e no resgate do rapaz, preferiu transformar as reações e o modo de falar da jovem em um "reality show" de julgamento moral.

    ​A mídia tradicional e as redes sociais colaboraram ativamente para essa caça às bruxas moderna. Enquanto o jovem ainda estava desaparecido, influenciadores e "especialistas" em expressões corporais dissecaram cada gesto e palavra da jovem, acusando-a de um assassinato que nunca aconteceu, baseando-se apenas em suposições vazias. Mesmo após o rapaz ser localizado com vida, encerrando qualquer tese de crime, o foco não mudou. Alguns programas em rede nacional e o tribunal digital continuaram a espremer a relação entre os dois, buscando incansavelmente um motivo para problematizar o caso, provando que o interesse maior nunca foi a segurança do trilheiro, mas sim o engajamento gerado pelo linchamento.
    Esse cenário é o retrato de uma internet tóxica que opera sob a lógica do ódio. No passado, multidões se reuniam para ver fogueiras baseadas em julgamentos morais; hoje, o algoritmo mantém essa 'chama acesa' e alimenta um perigo extremo ignorando que o peso de um cancelamento dessa magnitude já levou indivíduos a atentar contra a própria vida. 
    Quando a mídia escolhe focar no "personagem vilão", ela valida a violência virtual e autoriza o público a destruir uma vida por puro entretenimento.
    ​Ao fim, o caso do Paraná deixa um alerta: precisamos urgentemente questionar essa sede de sangue digital. Se continuarmos permitindo que a opinião pública, alimentada por análises superficiais e manchetes caça-cliques, substitua a justiça e os fatos, estaremos condenando a todos à barbárie de um tribunal que não aceita erros e não conhece a compaixão.
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